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02-08-2002 - Noticia
Segurança 20 - Travagem
Click para ampliarAcompanhando a enorme capacidade de aceleração, as motos actuais, apresentam também, impressionante poder de travagem, ao nível de qualquer carro desportivo. Sobre a travagem podem ser expendidos muitos e profundos comentários técnicos acompanhados de diagramas e incluso de teoremas e expressões matemáticas, com certeza amplamente explicativos mas, neste momento, para quê complicar?

Partamos dos pressupostos simples:
- A nossa aderência ao solo está dependente unicamente da superfície de pneu que contacta o solo e que, por cada um, não é superior a um palmo;
- Durante a travagem a massa desloca-se para a frente, de onde decorre um aumento da aderência do pneu frontal e uma diminuição do traseiro.

Isto quer dizer que estamos dependentes, principalmente, de um palmo de borracha à nossa frente. Ora, não foi bem isto que, na maior parte dos casos nos ensinaram quando tivemos aquelas lições antes de nos apresentarmos a exame para tirar a carta de moto. A teoria que a maioria dos instrutores nos instila é a de travar com o pneu traseiro e quase esquecer o dianteiro. Então, mas... estão errados? Nem por isso.... O que convém não esquecer é que uma coisa é passar no exame de condução, outra substancialmente diferente é saber conduzir.

Vamos por partes. Alguma razão assistiu ao nosso instrutor quando nos instruiu a travar com o travão traseiro. Em primeiro lugar, como certamente estarão recordados, a velocidade a que as nossas deambulações se produziam eram ínfimas. Não raro, circula-se a 40, a 30 ou mesmo a 20 km/h. A estas velocidades a deslocação do peso em travagem não é enorme já que a força da inércia também o não é. Nestas circunstâncias, ainda que não seja, como nunca é, a travagem correcta, não apresenta perigo de maior a travagem apenas com o travão traseiro.

Em segundo lugar há que não esquecer que, na maior parte dos casos, o instruendo não sabe ainda conduzir e, facilmente poderá exagerar no aperto da manete do travão dianteiro provocando o bloqueio da roda ( a baixa velocidade o travão responde imediatamente ) e a mais que provável queda, quanto mais não seja pela súbita paragem, quando não pela derrapagem e fuga do pneu dianteiro.

Click para ampliarA nossa prática de condução, porém, uma vez ultrapassado o exame, é totalmente diferente. A velocidade é consideravelmente outra e assim a força da inércia. Quilos e quilos se deslocam de frente para diante numa travagem aumentando a pressão da borracha do pneu dianteiro sobre o asfalto e aligeirando a carga no traseiro, a tal ponto que artistas existem que, controlando o processo, conseguem levantar graciosamente o pneu traseiro numa acrobacia conhecida como “égua” (em inglês é dito “stopie”). Daí que se travarmos com o travão de trás, como nos dizia o instrutor, o mais certo é que, dada a menor aderência deste, a derrapagem se inicie no processo de rabia, fugindo para um lado e outro até que sobrevenha a paragem, ainda de pé ou já deitado. Sabendo isto e olhando para os dispositivos de travagem patentes na nossa moto facilmente concluiremos com que travão é suposto parar a moto.

Senão vejamos: atrás não mais que um disco pequeno de duas pinças (nem falo das scooters em que o travão traseiro ainda é de tambor), à frente, normalmente dois impressionantes discos, consideravelmente maiores que aquele e pinças em número e/ou poder bastante superiores. Mas então só se trava com o travão dianteiro? Nem tanto ao mar, nem tanto à terra. Ao travão dianteiro cabem, de facto, as despesas do grosso da travagem mas ao traseiro cabe uma função de enorme importância também – a de manter o equilíbrio e a estabilidade da moto compensando a deslocação do peso retirando alguma da pressão sobre o pneu dianteiro (evitando a derrapagem por esgotamento do limite da aderência) e mantendo a aderência do traseiro. A relação percentual de força a exercer por cada um varia conforme a velocidade e as condições do terreno. Pode ir de uma relação frente-trás de 90%-10% ou 80%-20%, a razoável velocidade, em boas condições de asfalto e clima, a uma de 50%-50% em condução lenta em clima chuvoso e piso molhado.

De resto é facilmente perceptível pelo mais inexperiente a capacidade de travagem de cada travão e a melhor forma de o fazer. Uma pequena experiência dissipará as dúvidas do mais desconfiado. Escolhei um pedaço de asfalto em recta e sem trânsito de outros veículos. Estabelecei marcas visuais que sirvam de balizas para duas operações e uma medição: aceleração, travagem e ponto de paragem total. Colocados no ponto de partida acelerai até uma velocidade moderada e até ao ponto que escolheram para iniciar a travagem.

Click para ampliarVamos fazer várias vezes este trajecto. Da primeira vez travem apenas com o travão traseiro com o cuidado de nunca entrar em derrapagem. Todas as travagens, aliás, devem ser efectuadas de forma gradual (até que percebam qual o nível óptimo, momento a partir do qual devem exercer pressão constante e não aumentar sob risco de bloqueio da roda e de queda) e, sendo efectivas, sem nunca colocar o condutor a máquina em perigo. Tomem nota do exacto local de imobilização do veículo. Agora vamos voltar ao ponto de partida. Mesma aceleração, mesma velocidade. No ponto de travagem utilizem apenas o travão dianteiro (de novo com o cuidado de nunca deixar bloquear a roda).

Para tirar dúvidas sobre os limites possíveis de cada travagem podem efectuar o percurso mais que uma vez, experimentando a força dos travões, até perceberem que chegaram ao limite das possibilidades de travagem em segurança. Cada vez que sentirem a mais leve derrapagem abandonem o travão e circulem normalmente. Para tal deve o traçado que escolheram dispor de bastantes metros mais.

Tenho a certeza que no fim desta experiência já não quedarão dúvidas sobre o poder de travagem de cada travão. Mas a experiência ainda não acabou. Vamos repetir uma vez mais, desta feita com travagem às duas rodas, da seguinte maneira. Uns centésimos de segundo após o início da travagem com o da frente iniciamos a carícia do disco traseiro com as pastilhas até sentir que a moto está equilibrada, ou seja, que o pneu traseiro está em controlo mitigando a descompensação da deslocação da massa para a frente. Anotem o ponto de imobilização total. Que diferença, hein? (uma vez mais, se notarem indícios de derrapagem, imediatamente abortem a experiência e retomem a circulação normal, estamos a treinar a travagem, não a queda). Esta pequena experiência que me foi ensinada num curso de condução segura pelos instrutores da reputada Escola “Técnicas Automovilisticas de Conducción” de Barcelona, faz-nos atingir imediatamente a lógica que preside à travagem: equilíbrio e estabilidade.

A travagem apenas com o travão traseiro é demasiado longa e instável ( com a deslocação do peso para a frente o pneu traseiro fica com tão pouca tracção que facilmente derrapa ). Apenas com o dianteiro é penosa para o condutor, que tem de aguentar nos braços todos os quilos que se deslocam para a frente, assim como para a suspensão a quem é pedida todo os esforço de compensação e finalmente para o pneu, cuja borracha terá de suportar todo o esforço de travagem, com o risco de ser ultrapassado o limite, bloqueando, derrapando, caindo. Com ambos, na correcta dosagem, a moto permanece quase horizontal o tempo todo, já que o esforço de travagem do pneu traseiro vai aliviar o do pneu dianteiro suavizando a travagem.

Jorge Macieira

Advogado, Mediador de Conflitos e motociclista

Advogado Moto-Lex Bonus Pater familias Boletim Facebook Google +

Índice
01 - Paixão e prevenção
02 - O motociclista
03 - o motociclo
04 - Atitude
05 - Concentração e percepção I
06 - Concentração e percepção II
07 - Conforto I (posição de condução)
08 - Conforto II (Frio)
09 - Conforto III (Calor)
10 - Conforto IV (Vento)
11 - Conforto V (Chuva)
12 - Visão e percepção
13 - Ver e ser visto
14 - Sinalização
15 - Visão - Perigos fixos
16 - Visão - Perigos móveis
17 - Raciocínio e prevenção
18 - Negociação (decisões, decisões...)
19 - Aceleração
20 - Travagem
21 - Travagem II (a redução)
22 - Ultrapassagem
23 - Curva
24 - 2 segundos para uma vida
25 - Condução em grupo
26 - Bagagem
27 - Velocidade
28 - Condução com pendura
29 - Acidente - que fazer ? (o próprio)
30 - Acidente - que fazer ? (os outros)
31 - Condução nocturna
32 - Condução urbana I
33 - Condução urbana II
34 - Viagem
35 - Situações de perigo
36 - Armadilhas urbanas
37 - As motos também se deitam (e levantam)
38 - O furo da minha vida
39 - Prendam essa moto
40 - As mais estúpidas idas ao tapete
 
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