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30-07-2002 - Noticia
Segurança 19 - Aceleração
Click para ampliarAs motos actuais são capazes de acelerações brutais. Rapidamente se colocam na casa da centena de quilómetros horários o que confere ao motociclo características de condução muito próprias atenta a sua restante morfologia.

Click para ampliarFenómeno a dever ter em conta é o da deslocação da massa. A moto parada ou em velocidade de cruzeiro encontra-se estável e equilibrada. Durante a aceleração dá-se uma transferência de massa (peso, se preferirem) para trás e, se for bastante violento, pode mesmo causar o levantamento da roda dianteira (o chamado “cavalinho”) causando instabilidade. Esta deslocação de massa dificulta a condução e o controle e o que se pretende é exactamente a manutenção do controle da aceleração por parte do seu condutor. Porquê? Porque na aceleração, com a transferência de peso para trás, se é certo que aumenta a aderência do pneu traseiro (até ao ponto em que a aceleração seja superior à tracção disponível) diminui a aderência do pneu dianteiro e, como vereis, este desempenha um papel fundamental na condução pois controla a direcção e a travagem. Daí que, e até por razões de economia do material, o esforço de aceleração deva ser repartido pelas diversas marchas (mudanças) de forma uniforme.

Não se deverá forçar a primeira às 10000 rpm para depois a segunda ser levada às 3500 para a terceira ir às 7500 e a quarta às 4500. Pelo contrário, se a primeira será levada até às 5000 rpm também as seguintes deverão ser levadas a essa rotação mas não mais, nem menos. Desta maneira o peso estará repartido de forma mais igualitária pois que o esforço exigido às suspensões não afectará o seu trabalho regulador.

Existe a propósito de aceleração uma máxima que se inscreve a letras de ouro: Não acelerar mais do que se pode travar. Isto quer dizer que não devemos acelerar, em momento algum, mais do que poderemos travar no espaço livre visível à nossa frente. Se considerarmos que este sofre frequentemente reduções drásticas no seu tamanho por acção de qualquer perigo móvel, dos muitos que existem, retiraremos daí a necessária ilação de que uma boa margem de segurança é fundamental. Por outro lado, uma incorrecta utilização do acelerador coloca demasiada pressão na máquina (com o consequente desgaste de peças e diminuição de vida útil), reduz a aderência e torna a condução muito cansativa, aumenta consideravelmente o espaço necessário à travagem e aumenta a força do impacto em caso de acidente.

Click para ampliarUma capacidade fundamental que deve ser desenvolvida é o sentido de aceleração, i.e., a capacidade de adaptar a nossa velocidade ás condições de trânsito e traçado que a todo o momento se nos apresentem. Isto de forma suave e mantendo-se sempre aquém dos limites de esforço da máquina e, especialmente, do condutor. Obriga a um conhecimento profundo das possibilidades de um e das capacidades de outro. E ainda que os comandos estejam devidamente regulados para o nosso tamanho de mão, perna e pé. Não se conseguirá suavidade alguma se para engrenar a mudança acima (que obriga à coordenação de embraiagem e caixa de velocidades) o condutor for obrigado a truques de contorcionismo para accionar a manete ou a alavanca. Este sentido de aceleração pode ser inato mas também adquirido.

Através da prática reiterada e consciente do esquema mental de visão – percepção – raciocínio – execução, todas as considerações que de início requerem grande elaboração passarão, com o tempo, a estar interiorizadas e surgirão natural e automaticamente, dispensando mais considerações. O que quer dizer que tudo é uma questão de hábito. Habituado o cérebro a certas rotinas, ele interioriza-as e executá-las-á sempre que se conjugarem as circunstâncias que as despoletem. Por exemplo: na aproximação a uma curva o nosso olhar buscará os pontos no horizonte que já sabe serem os de onde costumam partir as ameaças, espelhos retrovisores inclusive, a moto será colocada no ponto ideal para o ataque à curva, o sinal de mudança de direcção será accionado, a velocidade é adequada, a manobra inicia-se e é executada sempre de forma controlada e a saída é bem sucedida. Para tudo isto são necessários uma série de raciocínios e, se tivermos de os efectuar conscientemente, então ainda há que lhes adicionar os da memorização, busca e recolecção da série de acções a empreender.

Click para ampliarCom a prática o número total de raciocínios diminui exponencialmente porque passarão a constar de uma matriz de comportamento que só se alterará por alteração das circunstâncias e mesmo aí não terá normalmente de efectuar todos os raciocínios da nova manobra bastando para tal lançar mão da sequência comportamental já interiorizada para a nova solicitação. Mal comparado. É como se actuássemos por conjuntos de pequenas acções, chamemos-lhes fichas, cada um deles pertencendo e necessários a cada manobra. Depois de rotinado o cérebro já não executa todos os raciocínios necessários a cada centímetro do nosso percurso limitando-se a recorrer às fichas.

Click para ampliarCom esta automatização o cérebro liberta memória (já ouviram falar de RAM e recursos disponíveis  ?) para outras actividades e raciocínios. Se estes estiverem directamente relacionados com a condução, melhor, melhor qualidade poderemos atingir pois a concentração, a visão, a percepção e, por isso, o raciocínio, estarão optimizados. Se não, cuidado, chama-se a isso distracção e pode revelar-se fatal. É normalmente, passada a fase do medo do principiante, no início da fase em que já efectua uma condução através de fichas básicas que a confiança do condutor corre o risco de o enganar transmitindo-lhe uma sensação maior do que a correspondente à realidade e em que ele se permite a distracção. É a fase mais perigosa porque se já se encontram interiorizadas as funções básicas ainda não o estão as superiores que têm precisamente a ver com o alerta e a concentração e rapidez de raciocínio exigidos pela condução. E depois de passada a fase seguinte o condutor sabe, automaticamente, que não se pode desconcentrar. E quando o faz, dá-se mal.

Jorge Macieira

Advogado, Mediador de Conflitos e motociclista

Advogado Moto-Lex Bonus Pater familias Boletim Facebook Google +

Índice
01 - Paixão e prevenção
02 - O motociclista
03 - o motociclo
04 - Atitude
05 - Concentração e percepção I
06 - Concentração e percepção II
07 - Conforto I (posição de condução)
08 - Conforto II (Frio)
09 - Conforto III (Calor)
10 - Conforto IV (Vento)
11 - Conforto V (Chuva)
12 - Visão e percepção
13 - Ver e ser visto
14 - Sinalização
15 - Visão - Perigos fixos
16 - Visão - Perigos móveis
17 - Raciocínio e prevenção
18 - Negociação (decisões, decisões...)
19 - Aceleração
20 - Travagem
21 - Travagem II (a redução)
22 - Ultrapassagem
23 - Curva
24 - 2 segundos para uma vida
25 - Condução em grupo
26 - Bagagem
27 - Velocidade
28 - Condução com pendura
29 - Acidente - que fazer ? (o próprio)
30 - Acidente - que fazer ? (os outros)
31 - Condução nocturna
32 - Condução urbana I
33 - Condução urbana II
34 - Viagem
35 - Situações de perigo
36 - Armadilhas urbanas
37 - As motos também se deitam (e levantam)
38 - O furo da minha vida
39 - Prendam essa moto
40 - As mais estúpidas idas ao tapete
 
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