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27-05-2002 -
Noticia |
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Segurança 04 -
Atitude |
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Conduzir um motociclo
é uma actividade muito perigosa. Ponto final. Já
vos estou a imaginar... lá está este chato a
bater outra vez no ceguinho, diz que é perigoso
mas ele anda todos os dias, deve estar a
convencer-nos de que é muito bom. Não, não é
isso. Trata-se apenas de uma constatação de
facto.
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E é a partir dela e de
estarmos convencidos de que a asserção é
verdadeira que podemos partir para a condução de
uma forma segura. Não é com medo, é, segura. Vem
isto a propósito de um aspecto fundamental na
condução – a atitude. Mental está bem de se ver.
Deixem-me explicar: Sempre que conduzimos
uma moto montamos um veículo dotado de condições
únicas de equilíbrio, que depende de dois
pedaços de borracha que em contacto com o solo
asseguram a nossa aderência, circulando nas mais
diversas condições atmosféricas e de piso,
cruzamo-nos com os mais diversos perigos,
qualquer um deles suficiente para nos deitar ao
chão, sofremos as mais diversas solicitações,
somos obrigados a tomar milhares de pequenas
decisões, na esperança de atingirmos, ilesos, o
nosso ponto de destino. Ao fim e ao cabo, quer
estejamos a dirigir-nos ao local de trabalho, a
retornar a casa, a passear, tudo se resume a um
ponto de partida, um trajecto e a um ponto de
chegada. Entre um e outro tudo deve passar-se em
segurança. E para que tudo assim funcione,
sempre, uma condição se revela fundamental – a
nossa atitude. Perigoso será sempre mas da nossa
atitude decorrerá um acréscimo ou uma diminuição
na percentagem do risco que corremos. E o que é
esta atitude? Não é mais que a nossa postura
perante a condução, os outros, as condições em
que a condução decorre. Das fases da condução, a
percepção, o raciocínio, a decisão, a execução,
falaremos noutra ocasião. Agora vamos apenas
deter-nos sobre a fase anterior a isso tudo.
António
Kamikaze acordou, como de costume, atrasado para
o emprego. Mas não está preocupado pois deposita
fé imensa na sua boa capacidade de condução (até
fez um tempo fabuloso no último Track Day
quase batendo o record do Haga), bem como
na sua moto radical, capaz de acelerações
brutais e de velocidade vertiginosa e desde que
nenhuma “besta” se lhe meta à frente “não há
azar”, saltará para cima da “menina” e fará o
trajecto de Cascais a Lisboa pela auto-estrada
sempre a “abrir”, pela berma se necessário, e
depois em slalom entre os carros até ao
local de trabalho lá para as bandas do Camões.
Tudo em 15 minutos.
João Seguro, vizinho
do António, já vai a essa hora na estrada,
depois de ter efectuado uma rápida inspecção ao
estado geral da “burra”, com atenção para o
estado e pressão dos pneus, funcionamento das
luzes, correcta inclinação dos espelhos, tensão
e lubrificação da corrente, para além dos níveis
de óleo de motor e travões. Segue em velocidade
adequada tomando em atenção o estado da estrada,
os veículos que circulam à sua frente e atrás,
sinalizando as suas mudanças de via e de
direcção, cuidando de ver e ser visto, não
tomando decisões que põe em execução num ápice
antes que todos percebam. A lógica do João é
“não há cliente nem patrão que me agradeça por
não ter chegado se tiver um acidente”.
Ainda que ambos cheguem ao seu destino
sem novidade qual vos parece que tem mais
hipóteses de repetir o trajecto anos a fio sem
que nada de negativo lhe suceda? Até pode ser
que, por desgraça, o João sofra um dia um
acidente mas não foi por falta de esforço.
Atitude é isto. Reconhecer a perigosidade do
meio de transporte, das condições de circulação
e da necessidade de chegar, ileso, e adaptar a
condução a este circunstancialismo. É estar
profundamente consciente das capacidades da
nossa máquina (quantos há que julgam que
conhecem e depois...) das nossas capacidades de
condução no momento em que o fazemos (e que
variam conforme uma série infindável de
condicionantes) e conduzir sempre aquém delas,
nunca além. Dar sempre o desconto para, quando
em necessidade, ter possibilidade de corrigir.
Atitude é, também, esvaziar a cabeça de
emoções. Sendo verdadeiro que a condução de uma
moto é, por si, emocionante e fonte de grande
satisfação, para dela podermos retirar esse
efeito, a condução deve ser desprovida de
paixão. Não apenas em si mesma, como em
interacção com os outros, sejam outros
motociclistas, sejam automobilistas
(osraispartadosenlatados). O picanço, a
ultrapassagem de raiva (que o gajo apertou-me de
propósito) seguida de travagem brusca, o espelho
lateral arrancado, o dedinho espetado ao
condutor que falhou ver-nos, o insulto ladrado
de dentro do capacete (serve de muito), todas
estas acções vão conduzir a estados de animo
exaltados afastando a nossa concentração da que
deve ser a principal das nossas preocupações – a
condução – e influirão nas decisões que vamos
tomar a seguir, agora de cabeça quente. Não
esqueçam que a uma acção nossa pode corresponder
uma reacção de um outro, igualmente de cabeça
quente, que não mede as consequências do seu
acto ( no caso dos automobilistas é típico * ) e
nos pode levar a situações de acidente ou de
iminência de acidente e, estando exaltados,
falhamos na capacidade de raciocínio e
rapidamente podemos ter um ataque de pânico. Não
é por sermos medrosos que podemos sofrer um
ataque de pânico, bastando que em dado momento
sejamos confrontados com uma situação que não
esperamos e para a qual o cérebro chega à
conclusão que não tem capacidade de resposta,
accionando a reacção involuntária de pânico. Em
pânico, o cérebro pára. Sem querer dizer mal
seja de que sistema for não resisto à comparação
de um crash do sistema operativo do computador.
E o que se faz perante o crash? Encerrar e
rearrancar porque aquela situação já não tem
solução. Ora, na estrada não há tempo para tais
procedimentos. Um crash destes é fatal. Uns
milionésimos de segundo são quanto basta para
falhar... e morrer.
Atitude é também
educação, cordialidade, cortesia, boas maneiras.
É lidar com as emoções dos outros a nosso favor.
Se a uma atitude negativa corresponde uma
reacção negativa de igual valor ou superior, uma
atitude positiva em reacção a uma asneirada de
outro condutor tem como efeito o desarme, a
acalmia. Não é difícil entender que, se depois
de ter sido praticamente abalroado por um
automobilista, que mudou inopinadamente de faixa
ocupando o espaço onde era suposto eu transitar
calmamente, lhe passo uma tangente e o insulto
ou dou uma pancada na porta ou arranco um
espelho a vontade que ele tem é de me alcançar e
atirar-me ao chão, com consequências funestas
para mim. Porém, se lhe chamar a atenção para o
que fez através de um curto toque de buzina e um
gesto não agressivo, ele vê-me, finalmente, pode
até corrigir a manobra, e percebe que procedeu
erradamente (pode não o confessar, mas percebe)
e pode ser que peça desculpa. O mais provável é
que a partir daí circule com mais atenção
(também pode ser uma alimária completa e não
servir de nada quanto a ele mas servirá para os
outros que assistiram à asneirada e
interiorizarão a atitude errada do “colega”
automobilista e a atitude correcta e civilizada
do motociclista, melhorando o estado de espírito
do grupo). Ao invés, a atitude negativa do
motociclista provocará a atitude vingativa não
apenas daquele automobilista mas também o desejo
secreto de todos que aquele motociclista acabe
mal, contribuindo para a crispação do grupo. O
mesmo se aplica se paro antes de uma passadeira
não sinalizada para dar passagem a peões. Ou se
concedo direito de passagem a um automóvel, suma
generosidade. O exemplo conta. Não esqueçam que
a maioria dos automobilistas conduz distraído ou
possuído pelas suas emoções. Fazê-los sair da
distracção e usar as suas emoções a nosso favor
é diminuir o nosso risco, para além de aumentar
a nossa paz de espírito e a dos outros.
Atitude é, por
último, ser inteligente (somos todos em maior ou
menor grau). Ter capacidade crítica em relação à
nossa condução e ter a capacidade de aprender.
Aprender com as nossas imperfeições. Nem tudo o
que fazemos está bem feito. Estar sempre
consciente para a condução que fazemos,
analisá-la, dissecá-la mesmo, e partir dessa
análise constante para o aperfeiçoamento e o
melhoramento da condução que praticamos. Claro
que para a análise ser correcta não nos bastamos
a nós próprios (se não sabemos que algo está
errado como reconhecer o erro?) sendo
conveniente ter vontade e aprender com os outros
(motociclistas mais experientes), não ter medo
da dúvida e de a expôr, não ter preguiça de ler
livros e revistas sobre o tema, tirar um curso
sobre técnicas de condução (quando os há e temos
dinheiro para os pagar). É ter consciência de
que a instrução que nos foi ministrada nas aulas
de condução nos permitiram atingir o exame e
passá-lo mas nos deixaram ainda profundamente
ignorantes sobre a condução da moto e que só com
a ajuda de outros podemos mais rapidamente
suplantar o que apenas muitos anos de
experiência nos darão. Ninguém nasce ensinado e
esperar que o processo de aprendizagem se
efectue apenas com a experiência própria por
professora pode revelar-se fatal.
Nota:
Se não o são também, compreendam ou tentem
compreender o ponto de vista dos enlat... digo,
dos senhores automobilistas. Eles vão, seja em
carripanas absurdas, seja em veículos comerciais
(que não são deles e portanto que se l&%=)
seja em potentes bólides, enclausurados naquela
estrutura de metal e vidro (algo
claustrofobiante), normalmente condicionados uns
pelos outros, quantas vezes em longas bichas de
pára-arranca, com os nervos em franja pela fila
que avança de forma sempre demasiado lenta para
as suas necessidades e, o sentimento natural em
relação aos motociclos que eles vêem passar
livres de tal condicionante é de alguma inveja.
Ora, por muito boas pessoas que sejam, por muita
simpatia que uns possam ter pelas motas, a
inveja é um sentimento corrosivo e basta que se
obnibule o cérvo (o que uns têm por cérebro) por
um instante para terem uma reacção negativa,
como de nos taparem a passagem propositadamente.
Por outro lado, por falta de instrução, hábitos
arreigados ou falta de raciocínio os espelhos
não estão, normalmente, na posição adequada para
verem o que se passa atrás (isto para os que os
usam que também é uma minoria) e não dão pela
nossa aproximação (não vêm em estrada aberta e
muito menos em bicha). A nossa passagem é, as
mais das vezes, um susto. E do susto à reacção
disparatada...
Jorge
Macieira
Advogado, Mediador de Conflitos e motociclista
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